Monday, June 17, 2013

Abrindo os olhos e as mentes nas minhas aulas - Não é só por 20 centavos






Ter vivido nos EUA com meu marido enquanto ele estava fazendo mestrado em Políticas Públicas e ter lecionado português na Duke University mudou muito a minha cabeça. Mais do que pensar apenas nas metodologias e técnicas de ensino, aprendi a enxergar muito além no ensino e da aprendizagem de línguas. Aprendi a questionar sobre o sistema e de que maneira eu poderia contribuir para melhorar a vida das pessoas ao meu redor. A partir das muitas leituras que meu marido fez, pude pensar na educação sob outras perspectivas e comecei a refletir mais sobre minhas aulas.

Lembro muito bem quando minha diretora lá, Magda Silva, me disse claramente que eu deveria ensinar português de uma maneira diferente porque os alunos esperavam algo mais do que apenas aulas com repetição de diálogos pré-fabricados e com regras gramaticais. Os alunos esperavam aulas mais profundas que envolviam o ensino da cultura e das situações que enfrentamos no nosso país. Confesso que tive uma surpresa ao saber disso porque seria um desafio mudar minha forma de trabalhar, mas aceitei a novidade com um misto de ansiedade e alegria porque eu amo mudar e fazer diferente.

Hoje, dia histórico aqui em Belém, cidade encravada na Amazônia brasileira, não consegui me manter alheia à tamanha revolução que vem tomando conta do Brasil. Finalmente parece que nós acordamos para protestar contra tantas mazelas que afligem a maior parte de nossa população e, mediante a tão importante data, não consegui seguir o conteúdo programático de hoje e propus reflexões sobre os problemas em várias áreas que meus alunos enfrentam.

Na turma de Língua Inglesa 2, por exemplo, discutimos sobre as áreas de Educação, Transporte, Segurança e Saúde. Cada grupo pensou em 5 problemas e propôs soluções. Em grupos, os alunos aprenderam a expressar esses problemas e soluções em inglês para que pudéssemos compartilhar com o mundo todo através das redes sociais o que vem acontecendo no nosso país. Também aproveitei para mostrar alguns artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e para que pudéssemos ligar os problemas com o documento da ONU que não é muito ensinado nas escolas.

Na turma de Teatro Anglófono discutimos sobre o poder que temos em nossas mãos através de nossas aulas. Discutimos que não podemos continuar a ensinar inglês com sentenças sem nenhum significado e que podem alienar nossos alunos. Conversamos que precisamos ensinar usando a Declaração Universal dos Diretos Humanos http://www.un.org/en/documents/udhr/, por exemplo, para que nossos alunos saibam quais são seus direitos e que lutem por eles.

Em vários momentos durante as duas aulas, meus alunos compartilharam os problemas que eles, suas famílias e amigos enfrentam por causa do descaso de vários políticos que vem nos governando há décadas. Houve inclusive lágrimas e raiva por termos tantos problemas em um país tão rico como o nosso. Não, não podemos mais aceitar tanto descaso.

Enfim, tenho consciência que fugi totalmente do conteúdo programático de hoje, mas sinto que cumpri meu papel como educadora ajudando na reflexão dos meus alunos para ajudar nosso país a entrar numa nova era, era de esperança, era de respeito a TODAS as pessoas e de respeito aos direitos humanos.

Espero que os protestos sejam pacíficos no mundo todo, em especial aqui em Belém, e que possamos ajudar a mudar a realidade para que mais pessoas tenham uma vida digna.

Até breve!

3 comments:

Quely Caldeira said...

Eu não sei porque o período ainda não terminou, mas para mim essa foi a melhor aula de todas as aulas!!! Porque simplesmente não tinha como não falar do momento histórico pelo qual nosso pais está passando. E discutir sobre isso foi como se estivéssemos participando de algum modo. Hoje a aula agradou a gregos e troianos! Porque realmente nós somos formadores de opinião e perceber que todos nós partilhamos o mesmo desejo de mudar nossa nação é um sentimento revigorante e inspirador. Eu fiquei ainda mais feliz porque aprendi a discutir todas essas coisas em inglês, sobre os problemas e as possíveis soluções.
Parabéns Cíntia você é uma excelente educadora!!

Cintia Costa said...

Raquely, fico muito feliz ao ler o seu comentário porque sei que você e seus colegas de UFPA vão revolucionar as aulas de línguas. Isso é apenas uma questão de tempo. Só tempo.

Anonymous said...

Cintia, como professora, entendo bem o que você está falando. Nas minhas aulas trato de análise textual e de análise discursiva. Os textos que circulam nesses tempos têm sido muito favoráveis não só à reflexão dos usos linguísticos, mas também à discussão de ideias e dos problemas sociais que vivenciamos todos os dias. Não se trata de fazer política partidária, mas de percebermos que a verdadeira educação é libertadora e reflexiva por natureza. Parabenizo a sai iniciativa. :)